Gravidez, Maternidade e Paternidade

Meninos Grávidos

Livro-reportagem conta histórias de gravidez precoce do ponto de vista do pai adolescente

Por Flávia Guerra (reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo)

"Eu achei que minha vida ia acabar. Foi incrível quando eu percebi que não tinha acabado e nem ia acabar por causa do bebê. Aprendi que, de um jeito ou de outro, a vida sempre continua", afirmou um jovem pai em entrevista ao jornalista Gilberto Amendola quando questionado sobre sua experiência de ser um pai adolescente. A vida dos pais adolescentes não acaba, mas ganha novos contornos e responsabilidades com a chegada de um bebê. Os jovens pais, que estão apenas iniciando seu preparo para a vida adulta, vêem-se às voltas com questões como o amadurecimento precoce, a responsabilidade que a chegada e a criação de um filho exigem.

Além disso, via de regra, os jovens pais nem de longe contam com a mesma atenção que as meninas-mãe recebem da família, dos amigos e, principalmente, das autoridades. "Os meninos em geral ficam de escanteio. Pela família da garota, são tidos como um monstro, que estragou a vida da menina", comenta Amendola. "Pela sua própria família são vistos como ‘idiotas’, alguém que não usou preservativos e não se cuidou. Estes meninos, que já não possuem o preparo necessário para assumir tal responsabilidade, ficam ainda mais perdidos", comenta o jornalista, que realizou inúmeras entrevistas com pais adolescentes para compor "Meninos Grávidos - O Drama de Ser Pai Adolescente" (Editora Albatroz, Loqüi e Terceiro Nome; 96 páginas), que faz parte da coleção "Repórter Especial".

A intenção do jornalista foi conversar com estes garotos para descobrir o caminho do meio, que eles não são nem monstros nem idiotas. Repórter do "Jornal da Tarde", ele conta que a idéia de escrever sobre o assunto surgiu de seu trabalho. "Fui cobrir um encontro sobre gravidez na adolescência e uma das notícias foi de que mães de adolescentes grávidas teriam passe gratuito de ônibus para acompanhar suas filhas em exames pré-natais. Perguntei se não haveria tal facilidade para os pais adolescentes, para que eles também acompanhassem suas parceiras. E minha pergunta foi tomada como pura idiotice. Fiquei com aquilo na cabeça e comecei a pensar em aprofundar esta indiferença geral em relação aos ‘meninos grávidos’", conta Amendola que, para compor o livro, contou com o auxílio da única ONG na América Latina que trata deste assunto, o Instituto Papai do Recife (PE).

Além do instituto, que forneceu várias informações e ajudou o jornalista a encontrar jovens pais, ele contou com o Orkut (site de relacionamento da internet). "Lá, encontrei várias comunidades de pais adolescentes, que conversaram comigo e disseram coisas reveladoras".

Além da falta de apoio das famílias, que muitas vezes impedem até que o pai participe da criação da criança, os "meninos grávidos" praticamente inexistem oficialmente. As autoridades não reconhecem a paternidade adolescente e não criam mecanismos de orientação a estes jovens. "Não há números oficiais nem programas para estes jovens. Chegamos a um número aproximado de pais adolescentes porque supomos que muitas jovens mães engravidem de jovens pais também, mas não há nada comprovado. Estes meninos carregam o ônus do discurso moralista de não terem usado camisinha nem outro preservativo, mas este é um problema que atinge todas as faixas etárias", diz Amendola.

Apesar do tema complexo, o jornalista faz questão de tratar o assunto com bom humor. "Não adianta dramatizar, mas sim informar estes jovens. Espero que o livro chegue às mãos de muitos destes adolescentes. Muitos dos que conversaram comigo me ensinaram bastante sobre o tema e mostraram que bom humor é imprescindível", comenta. "Estes ‘meninos grávidos’ com quem conversei já passaram do primeiro ano como pais, aprenderam a lidar com as mães, que, na maioria dos casos, acaba se tornando amiga deles (pois a relação geralmente não dura mais que um ano após o nascimento do bebê)", diz ele. "Eles perceberam que não adianta querer se tornar adulto de uma hora para outra e que a sensação de paternidade vem mesmo com o tempo. Por isso, a relação e a proximidade do pai com o bebê, muitas vezes impedida pela família da mãe e do próprio garoto, é importantíssima."

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